O frigorífico que produz carne de frango sem matar uma ave

18/10/2018

Há uma crise iminente diante do crescente apetite por carne no mundo. Será que um frango que cisca em uma fazenda em São Francisco pode ser a solução?

FrangosDireito de imagem
ALAMYImage caption
Bilhões de animais são abatidos anualmente para alimentar a população

Há uma crise iminente diante do crescente apetite por carne no mundo. Será que um frango que cisca em uma fazenda em São Francisco pode ser a solução?

Em 1931, Winston Churchill previu que um dia a raça humana "escaparia do absurdo de criar uma galinha inteira para comer o peito ou a asa, produzindo essas partes separadamente".

Oitenta e sete anos depois, esse dia chegou, como descobrimos na Just, empresa de alimentos em São Francisco, nos EUA, onde provamos nuggets de frango fabricados a partir das células de uma pena de galinha.

O frango - que tinha gosto de frango - ainda estava vivo, supostamente ciscando em uma fazenda não muito longe do laboratório.

Essa carne não deve ser confundida com os hambúrgueres vegetarianos à base de verduras e legumes e outros produtos substitutos de carne que estão ganhando popularidade nos supermercados.

Não, trata-se de carne real fabricada a partir de células animais. Elas são chamadas de diversas formas: carne sintética, in vitro, cultivada em laboratório ou até mesmo "limpa".

São necessários cerca de dois dias para produzir um nugget de frango em um pequeno biorreator, usando uma proteína para estimular as células a se multiplicarem, algum tipo de suporte para dar estrutura ao produto e um meio de cultura - ou desenvolvimento - para alimentar a carne conforme ela se desenvolve.

O resultado ainda não está disponível comercialmente em nenhum lugar do planeta, mas o presidente-executivo da Just, Josh Tetrick, diz que estará no cardápio em alguns restaurantes até o fim deste ano.

"Nós fazemos coisas como ovos, sorvete ou manteiga de plantas e fazemos carne apenas a partir de carne. Você simplesmente não precisa matar o animal", explica Tetrick.

Nós provamos e os resultados foram impressionantes. A pele era crocante e a carne, saborosa, embora a textura interna fosse um pouco mais macia do que a de um nugget do McDonald's ou do KFC, por exemplo.

Tetrick e outros empresários que trabalham com "carne celular" dizem que querem impedir o abate de animais e proteger o meio ambiente da degradação da pecuária intensiva industrial.

Eles afirmam estar resolvendo o problema de como alimentar a crescente população sem destruir o planeta, ressaltando que sua carne não é geneticamente modificada e não requer antibióticos para crescer.

A Organização das Nações Unidas (ONU) diz que a criação de animais para a alimentação humana é uma das principais causas do aquecimento global e da poluição do ar e da água. Mesmo que a indústria pecuária convencional se esforce para se tornar mais eficiente e sustentável, muitos duvidam que será capaz de acompanhar o crescente apetite global por proteína.

Abatemos 70 bilhões de animais por ano para alimentar sete bilhões de pessoas, destaca Uma Valeti, cardiologista que fundou a Memphis Meats, empresa de carnes fabricadas a partir de células, na Califórnia.

Segundo ele, a demanda global por carne está dobrando, à medida que mais pessoas saem da pobreza. Nesse ritmo, acrescenta, a humanidade não conseguirá criar gado e frango suficientes para saciar o apetite de nove bilhões de pessoas até 2050.

"Assim, podemos literalmente cultivar carne vermelha, aves ou frutos do mar diretamente dessas células animais", diz Valeti.

Muitos americanos afirmam que estão comendo menos carne, mas dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos sugerem que o consumidor médio ainda vai ingerir mais de 100 quilos de carne vermelha e frango neste ano - cerca de 20 quilos a mais do que consumiam nos anos 1970.

Hamburger de frango Image caption
A demanda por carne está crescendo em todo o mundo

O cientista holandês Mark Post é um dos pioneiros da agricultura celular - seu primeiro hambúrguer produzido em laboratório, em 2013, custou US$ 300 mil.

Nenhuma empresa ampliou ainda a produção para servir comercialmente um hambúrguer feito a partir de células, mas Post estima que, se começasse a produzir seus hambúrgueres em massa, poderia reduzir o custo de produção para cerca de US$ 10 cada.

"É claro que ainda é muito alto", avalia.

Se a Just conseguir fabricar nuggets de frango suficientes para vender neste ano, é improvável que seja em um restaurante americano, pois o governo dos EUA ainda está decidindo como proceder.

A maioria dos alimentos no país é regulada pela Administração de Alimentos e Medicamentos (FDA, na sigla em inglês). Mas alguns - principalmente a carne produzida convencionalmente - são controlados pelo Departamento de Agricultura (USDA, na sigla em inglês).

Então, se você compra uma pizza congelada nos EUA, o USDA é responsável pela de pepperoni e o FDA, pela de queijo.

"Há vários países na Ásia e na Europa com os quais estamos conversando", diz Tetrick.

Segundo ele, "há uma falta de clareza" em relação à regulamentação nos EUA, enquanto o USDA e o FDA realizam audiências públicas sobre o tema.

"Acho que os países querem assumir essa liderança. Seja pela escassez de alimentos, por questões de sustentabilidade ou apenas pelo desejo de construir uma economia inteiramente nova, eles querem assumir essa liderança", disse Tetrick.

O objetivo final é levar a "carne celular" do laboratório para grandes fábricas.

Existem atualmente dezenas de empresas que atuam nessa área e estão atraindo investidores de capital de risco do Vale do Silício e de outras regiões. Bilionários como Bill Gates e Richard Branson estão entre aqueles que investiram dinheiro na tecnologia.

O produto também conta com um benfeitor mais surpreendente: a Tyson Foods, que investiu uma quantia não revelada na Memphis Meats.

A Tyson é a maior processadora de carnes dos EUA - são cerca de 424 mil suínos, 130 mil vacas e 35 milhões de frangos processados por semana.

Então, por que a companhia estaria investindo em "carne celular"?

Ela decidiu "deixar de ser uma empresa de carne para ser uma empresa de proteína", diz Tom Mastrobuoni, diretor financeiro da Tyson Ventures, braço de capital de risco da Tyson.

"Tomamos a decisão consciente de que seremos a maior empresa de proteínas", acrescentou.

A tecnologia de ponta do Vale do Silício pode ser sinônimo de um espírito liberal e empreendedor, mas os EUA ainda são um país onde a tradição fala alto.

A Associação dos Pecuaristas tem um lobby forte e não há nenhum símbolo mais venerado ou romantizado na história do país do que a figura do caubói.

E, assim, os fazendeiros do Meio-Oeste estão entrando no debate sobre como este novo produto será comercializado - como carne limpa, carne celular, carne livre de abate, proteína ética ou apenas carne?

Em seu rancho em Ozarks, região montanhosa que se estende do Missouri ao Arkansas, Kalena e Billy Bruce alimentam seu rebanho de gado Black Angus, com a ajuda da filha de quatro anos, Willa.

Kalena and Billy Bruce, with Willa Image caption

Kalena e Billy Bruce, com a filha Willa, em seu rancho em Ozarks, nos EUA

"Acho que precisa ser rotulado propriamente - como proteína produzida em laboratório", opina Billy Bruce.

"Quando penso em carne, penso no que está atrás de nós, um animal vivo que respira."

O estado do Missouri concorda. A pedido dos agricultores, os legisladores determinaram que o rótulo de carne só pode ser aplicado ao produto do gado. É um indicio de que o rompimento com a agricultura tradicional pode estar a caminho.

"Do ponto de vista da transparência para os consumidores, para que saibam o que estão comprando e dando para suas famílias comerem, achamos que precisa ser chamado de algo diferente", diz Kalena Bruce.

Lia Biondo, diretora de políticas de expansão da associação de pecuaristas dos EUA, com sede em Washington, diz que espera que a lei do Missouri possa ser reproduzida em outros Estados.

"Vamos deixar que essas empresas decidam como chamar seus produtos, desde que não chamem de carne", diz Biondo.

Mas, em todo caso, será que alguém vai realmente comer esses produtos?

Frequentadores do Lamberts, restaurante tradicional do Meio-Oeste em Ozark, no Missouri, terão que ser convencidos.

"A carne deve ser criada em uma fazenda, nos campos", declara Jerry Kimrey, trabalhador da construção civil de Lebanon, no Missouri.

A professora Ashley Pospisil, também de Lebanon, diz que prefere não comer carne à base de células.

"Eu gosto de saber de onde a carne veio, que é natural e não foi processada em laboratório", diz ela.

Linda Hilburn, que está comendo um bife antes de ir para casa em Guthrie, em Oklahoma, concorda:

"Tem algo na criação do homem que me assusta. Só causamos destruição aqui. Eu meio que gosto da ideia da criação de Deus."

Enquanto Hilburn está longe de ser a única a ter um pé atrás com a "comida Frankenstein", como os críticos a rotularam, Josh Tetrick insiste que a carne feita a partir de células é totalmente livre das muitas doenças animais que afetam a produção tradicional de carne.

E ele está apostando na experiência humana a favor do progresso.

"No fim das contas, se você está falando do avanço do picador de gelo para a geladeira ou da matança de baleias para usar seu óleo em lamparinas até as lâmpadas incandescentes... mesmo que as pessoas associassem as lâmpadas ao diabo... a humanidade conseguiu abraçar algo novo."

"Isso sempre acontece e, se eu tivesse que apostar, é o que vai acontecer em relação a isso também."

Regan Morris e James Cook

BBC News, São Francisco

Eleições 2018: O peso de cada região do Brasil

08/10/2018

O mapa do Brasil ficou novamente dividido em dois na apuração do primeiro turno das eleições presidenciais de 2018. De um lado, Jair Bolsonaro, o primeiro colocado, venceu em 17 Estados - em todos das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste e na maior parte da região Norte. De outro, Fernando Haddad, em segundo lugar, liderou em 8 dos 9 Estados do Nordeste e no Pará, no Norte.

Eleitora com a filha no colo, ao lado de uma sessão de votação, e em frente a um mapa do Brasil com o nome das 5 regiõesDireito de imagem 
EPA Image caption Jair Bolsonaro venceu em 17 Estados, Haddad em 9 e Ciro Gomes em 1

O único Estado do país que ficou fora dessa polarização foi o Ceará, onde Ciro Gomes ficou em primeiro lugar.

Esta é a quarta eleição presidencial seguida em que o mapa do Brasil fica dividido entre duas cores. Até 2002, a maioria dos Estados votava de forma semelhante.

Já a partir de 2006, quando o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva disputou a reeleição, as regiões passaram a votar de forma diferente. Naquele ano, o PT liderou em todo o Nordeste, parte da região Norte, Minas Gerais e Rio de Janeiro, entre outros. Já o PSDB esteve à frente em São Paulo, no Centro-Oeste e em parte do Sul e do Norte. Em linhas gerais, esse padrão se manteve até 2014.

A principal diferença neste ano foi a substituição do PSDB pelo PSL, partido ao qual Jair Bolsonaro se filiou em março. A segunda mudança mais importante foi a redução da área de influência do PT. Nas eleições de 2014, o partido venceu em 15 Estados; em 2010, em 18. Nesta, foram apenas 9 Estados.

A BBC News Brasil mostra abaixo alguns gráficos que ajudam a entender o peso de cada região do país na votação dos candidatos a presidente neste primeiro turno.

Mapa da apuração do primeiro turno, mostrando quem venceu em cada Estado: Bolsonaro em verde, Haddad em vermelho, Ciro em amarelo Image caption Mapa da apuração do primeiro turno, mostrando quem venceu em cada Estado: Bolsonaro em verde, Haddad em vermelho, Ciro em amarelo

1) De onde vieram os votos dos três primeiros colocados

A grande maioria dos votos de Jair Bolsonaro, 68%, teve origem no Sul e Sudeste. São 10 pontos percentuais a mais do que o peso dessas regiões no eleitorado brasileiro - ou seja, 58% dos eleitores do país vêm dessas duas regiões.

Já o desempenho do candidato no Nordeste foi baixo. Ali, o militar reformado conquistou 15% dos seus votos, quando a região representa 27% do eleitorado.

No caso de Haddad, o cenário é o oposto. De todos os votos no candidato, 46% foram no Nordeste. É mais do que o petista obteve nas regiões Sul e Sudeste juntas, 38%.

No caso de Ciro Gomes, de cada 100 votos que o candidato recebeu, 41 vieram do Sudeste e 36 do Nordeste. As demais regiões tiveram pouco peso na sua votação.

O gráfico abaixo mostra o percentual de votos dos três primeiros colocados no primeiro turno, decomposto por região. A primeira barra mostra os 46% de Jair Bolsonaro; a segunda, os 29% de Fernando Haddad; e a terceira, os 12,5% de Ciro Gomes.

Repare que, no caso de Bolsonaro, a faixa azul (Sudeste) é a mais representativa. Para Haddad, a faixa vermelha (Nordeste) é a maior. Note também que, apesar de Bolsonaro ter ido pior no Nordeste que em outras regiões, ainda assim obteve mais votos nordestinos que Ciro Gomes.

Gráfico mostra a decomposição da votação de Bolsonaro, Haddad e Ciro por região do Brasil

2) O número de votos que cada região deu para os três primeiros colocados

Outra forma de olhar para os números é pela quantidade de votos totais que cada região deu para cada candidato. A vantagem desse tipo de abordagem é que é mais fácil perceber o tamanho e o peso do eleitorado de cada região. O gráfico abaixo está dividido pelas cinco regiões. Cada cor representa um candidato e a altura de cada barra indica o total de votos.

O que mais chama a atenção é a votação de Bolsonaro no Sudeste, região que tem o maior número de eleitores do país. A distância do ex-capitão do Exército para Fernando Haddad no Sudeste é tão grande (15 milhões de votos a mais) que chega a superar a votação total do petista no Nordeste (14,5 milhões de votos).

Já a vantagem de Bolsonaro em relação a Haddad no Sul (cerca de 620 mil votos) é próxima à vantagem de Haddad em relação a Bolsonaro no Nordeste (em torno de 700 mil votos).

Na região Norte, por sua vez, a disputa entre Bolsonaro e Haddad foi mais acirrada.

Gráfico mostra quantos votos cada região do país deu para Bolsonaro, Haddad e Ciro

3) O resultado da votação em cada região do Brasil

O resultado do primeiro turno foi 46% para Jair Bolsonaro, 29,3% para Fernando Haddad e 12,5% para Ciro Gomes. Veja abaixo qual foi a proporção para cada região do Brasil.

- Centro-Oeste: 58% Bolsonaro, 21% Haddad, 10% Ciro.

- Nordeste: 26% Bolsonaro, 51% Haddad, 17% Ciro.

- Norte: 43% Bolsonaro, 37% Haddad, 9% Ciro.

- Sudeste: 53% Bolsonaro, 19% Haddad, 12% Ciro.

- Sul: 57% Bolsonaro, 20% Haddad, 9% Ciro.

- Exterior: 59% Bolsonaro, 10% Haddad, 14% Ciro.

Gráfico mostra a votação dos três primeiros colocados por região do país nas eleições 2018

Agora, compare com o resultado por região após o primeiro turno das eleições de 2014. No Brasil como um todo, Dilma Rousseff teve 42% dos votos válidos e Aécio Neves, 34%. Marina Silva ficou em terceiro lugar, com 21%.

É possível reparar que a votação do PT caiu em todas as regiões do Brasil. E que, também em todo o Brasil, a adesão a Bolsonaro é maior que o apoio ao PSDB quatro anos atrás.

Veja os resultados da votação para presidente:

Resultados das eleições presidenciais
% de votos válidos, excluindo votos brancos e nulos
Escolha seu estadoAcreAlagoasAmapáAmazonasBahiaCearáDistrito FederalEspírito SantoGoiásMaranhãoMato GrossoMato Grosso do SulMinas GeraisParáParaíbaParanáPernambucoPiauíRio de JaneiroRio Grande do NorteRio Grande do SulRondôniaRoraimaSanta CatarinaSão PauloSergipeTocantinsTOTAL PAÍS
Clique nos Estados para ver os resultados em dethales

TOTAL PAÍS

Seções apuradas: 100,00%Última atualização: 03h35 (horário de Brasília)
  1. JAIR BOLSONAROPSL49.387.416 votos
    46,05%
  2. FERNANDO HADDADPT31.361.213 votos
    29,24%
  3. CIRO GOMESPDT13.371.855 votos
    12,47%
  4. GERALDO ALCKMINPSDB5.102.873 votos
    4,76%
  5. JOÃO AMOÊDONOVO2.693.085 votos
    2,51%
  6. CABO DACIOLOPATRIOTA1.349.483 votos
    1,26%
  7. HENRIQUE MEIRELLESMDB1.289.886 votos
    1,20%
  8. MARINA SILVAREDE1.074.460 votos
    1,00%
  9. ALVARO DIASPODEMOS862.280 votos
    0,80%
  10. GUILHERME BOULOSPSOL618.382 votos
    0,58%
  11. VERA LÚCIAPSTU56.105 votos
    0,05%
  12. JOSÉ MARIA EYMAELDC41.885 votos
    0,04%
  13. JOÃO GOULART FILHOPPL30.329 votos
    0,03%
  1. VOTOS VÁLIDOS107.239.252 votos
    91,22%
  2. VOTOS BRANCOS3.111.942 votos
    2,65%
  3. VOTOS NULOS7.210.458 votos
    6,13%

Se você não puder ver o mapa acima, clique neste link

Amanda Rossi

Da BBC News Brasil em São Paulo

Presentational white space

Mineradora norueguesa tinha 'duto clandestino'...

24/02/2018

Além de um vazamento de restos tóxicos de mineração, que contaminou diversas comunidades de Barcarena, no Pará, a gigante norueguesa Hydro usou uma "tubulação clandestina de lançamento de efluentes não tratados" em um conjunto de nascentes do rio Muripi, aponta um laudo divulgado nesta quinta-feira pelo Instituto Evandro Chagas, do Ministério da Saúde.

Após negar irregularidades, a Hydro admitiu, em nota, a existência do canal encontrado por pesquisadores.

"Durante uma das vistorias, verificou-se a existência de uma tubulação com pequena vazão de água de coloração avermelhada na área da refinaria", afirma a empresa. "Conforme solicitado pelas autoridades, a empresa está fazendo as investigações necessárias para identificar a origem e natureza do material, bem como realizando a imediata vedação desta tubulação."

A multinacional produtora de alumínio, cujo acionista majoritário e controlador é o governo da Noruega, voltou ao noticiário brasileiro após a confirmação do vazamento, no último sábado, de uma barragem que continha soda cáustica e metais tóxicos, após chuvas fortes na região.

No ano passado, em meio a críticas do governo norueguês sobre o desmatamento na Amazônia, a BBC Brasil informou que a empresa devia R$ 17 milhões ao Ibama em multas por contaminação de rios da região em 2009.

"Houve duas constatações. Primeiro, transbordo de efluentes. Os níveis de alumínio nos rios estavam 25 vezes mais altos que os estabelecidos pela legislação. Segundo, o mais grave de tudo, a empresa fez uma tubulação para jogar resíduos diretamente no ambiente", disse à BBC Brasil o pesquisador em saúde pública Marcelo de Oliveira Lima, que assina o laudo oficial.

Segundo o especialista, "a população usa estas águas para recreação, consumo e captura de peixes", o que poderia levar a contaminação também para o solo e o organismo dos moradores. Resultados de testes feitos no cabelo e pele dos vizinhos à barragem devem ser divulgados nas próximas semanas.

Após denúncias feitas por moradores de comunidades próximas sobre o vazamento, a Hydro divulgou a seus clientes uma nota em que classificava o episódio como "boato", afirmando que "não houve vazamentos ou rompimentos" nos depósitos.

Após ser informada sobre o laudo oficial, entretanto, a empresa norueguesa disse, em nota enviada à BBC Brasil, que "tem o compromisso de corrigir qualquer problema que possa ter sido causado pela sua operação".

"A Hydro Alunorte informa que está providenciando imediatamente o fornecimento de água potável para as comunidades de Vila Nova e Bom Futuro, com apoio da Defesa Civil. A empresa se compromete a colaborar com as comunidades, onde foram coletadas as amostras pelo Instituto Evandro Chagas, para encontrar soluções de acesso permanente à água potável, em conjunto com as partes interessadas", afirma a companhia.

Questionada sobre a tubulação clandestina apontada pelo laudo e sobre a nota em que negava o vazamento, a empresa disse que aguarda receber o laudo oficial para comentá-lo.

Procurado, o governo norueguês afirmou que não conseguiria responder às perguntas enviadas pela reportagem em tempo hábil.

Barcarena x Mariana

Nesta sexta, o Ministério Público Federal e do estado do Pará enviaram à empresa um documento que solicita que uma das bacias da empresa seja imediatamente embargada.

Segundo os órgãos, há risco de rompimento da bacia, o que despertou temor por uma tragédia semelhante à de Mariana (MG), em 2015, quando um mar de lama cobriu municípios e se espalhou pelo rio Doce até chegar ao oceano.

"Uma das bacias sequer tinha licença para operar. Estamos recomendando desde o fornecimento de água, uma vez que o Evandro Chagas constatou que essa água não é própria para o consumo", afirmou a promotora de justiça agrária Eliane Moreira, em entrevista coletiva.

À BBC Brasil, o geógrafo Luiz Jardim, professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), disse que as barragens de Mariana e de Barcarena "têm naturezas distintas".

"Enquanto a da Samarco, em Mariana, era para lavagem de minério, a da Hydro, em Barcarena, é industrial, e guarda os resultados tóxicos da transformação da bauxita em alumina. Ela já pressupõe a existência de produtos químicos que fazem parte desta transformação, já que a limpeza dos minérios é feita antes, em Oriximiná."

Para Jardim, que integra o Comitê Nacional em Defesa dos Territórios Frente à Mineração, que reúne 110 organizações ligadas ao tema, o risco de inundação em Mariana era maior graças ao relevo mineiro.

"Em Mariana, a barragem é muito mais alta do ponto de vista de relevo, em relação à declividade da Amazônia, onde há uma planície fluvial. Então a força do rompimento, caso ele ocorra, será menor. O que é central no caso de Barcarena é o potencial mais alto de contaminação dos rejeitos", avalia.

'A gente não quer migalha'

Em junho do ano passado, a BBC Brasil revelou que a empresa controlada pelo governo norueguês é alvo de uma série de denúncias do Ministério Público Federal (MPF) do Pará e de quase 2 mil processos judiciais por contaminação de rios e comunidades de Barcarena (PA).

Segundo o Ibama, a empresa não pagou até hoje multas estipuladas em R$ 17 milhões, após outro transbordamento de lama tóxica, em 2009. Ainda de acordo com o instituto, o vazamento na época colocou a população local em risco e gerou "mortandade de peixes e destruição significativa da biodiversidade".

O trauma com o último vazamento trouxe pânico a moradores de comunidades próximas à sede da empresa, localizada em área de difícil acesso na floresta amazônica.

"Esse não é o primeiro vazamento. O de 2009 impactou demais", diz à reportagem Sandra Amorim, moradora da comunidade quilombola sítio São João, que fica a um quilômetro da bacia da Hydro.

"Primeiro eles negaram. Depois do laudo, dizem que teve vazamento. Eles prometeram agora que vão começar a distribuir água mineral potável e comida. Isso não é suficiente pra gente. A gente não quer migalha. A gente quer essa situação resolvida", afirmou.

A moradora prossegue, dizendo que "tem pessoas com coceiras pelo corpo e gente ficando doente" na comunidade.

Não há confirmação oficial sobre contaminação de moradores da região afetada até que os testes feitos por peritos sejam divulgados. O laudo recém-divulgado pelo Instituto Evandro Chagas aponta que a concentração de elementos como alumínio, chumbo, sódio e nitrato e alumínio nos rios da região extrapolaram os limites estipulados pelo Ministério da Saúde.

O pH registrado nas águas foi 10 - extremamente alcalino, em decorrência do derrame de soda cáustica, usada no processo de beneficiamento da bauxita, matéria-prima do alumínio.

Rastro de poluição

A Ordem dos Advogados do Brasil no Pará (OAB-PA) afirmou, em nota, que vai pedir o afastamento do secretário de Meio Ambiente do Pará, Thales Belo, e intervenção judicial na Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Pará (Semas), após a constatação da tubulação clandestina na região.

"Causou indignação especial a constatação pelos pesquisadores do IEC da existência de um dreno 'clandestino', por onde a empresa, com a aquiescência da Semas, drenava rejeitos quando as chuvas se intensificavam", diz o órgão.

Graças a uma rede de abastecimento de água que atende a apenas 40% da população local, os rios e poços artesianos são a principal fonte de água na região da pequena Barcarena - que viu sua população crescer em ritmo três vezes mais rápido que o do resto do país nos últimos 40 anos graças aos empregos gerados por mineradoras que se instalaram na região.

Formado por dezenas de ilhas e igarapés, o município experimenta crescimento desordenado desde que se tornou um importante exportador de commodities minerais (bauxita, alumínio e caulim), vegetais (soja) e animais (gado vivo).

"O histórico de acidentes ambientais em Barcarena é impressionante, uma média de um por ano", disse à BBC Brasil, em junho passado, o procurador da República Bruno Valente, que assina uma ação civil pública movida em 2016.

"O transbordamento de lama da bacia de rejeitos da Hydro afetou uma série de comunidades em 2009 e até hoje nunca houve uma compensação ou pagamento de multa", afirmou.

Dono de 34,3% das ações da megaprodutora mundial de alumínio, o governo da Noruega ganhou manchetes em todo o mundo no ano passado, após criticar publicamente o aumento do desmatamento na Amazônia.

Despertando constrangimento na primeira visita oficial do presidente Michel Temer à Noruega, o país anunciou, na época, um corte estimado em R$ 200 milhões nos recursos que repassa ao Fundo Amazônia, destinado à preservação ambiental.

Ricardo Senra - @ricksenra

Da BBC Brasil em Washington

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