A hidrelétrica acusada de matar 80 mil peixes...

06/10/2019

A hidrelétrica controlada pelos governos francês e brasileiro acusada de matar 80 mil peixes na Amazônia

hidrelétrica SinopDireito de imagem MPE-MT

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Cerca de 13 toneladas de peixes morreram às margens do rio Teles Pires, na área do reservatório da usina hidrelétrica Sinop

Entre 30 de janeiro e 4 de fevereiro, o cenário era desolador entre as cidades de Cláudia e Sinop, a 500 km de Cuiabá, ao norte em Mato Grosso. 13 toneladas de peixes de todos os portes boiavam mortos às margens do rio Teles Pires, na área do reservatório da usina hidrelétrica Sinop.

Em questão de dias, um odor fétido se espalhou-se por 25 km ao longo do curso do rio. Cacharas, capararis, corimbatás e dezenas de outras espécies típicas da Amazônia morreram em massa enquanto o rio era tomado por espumas não naturais e restos de vegetação em decomposição avançada.

O Teles Pires, também conhecido como rio São Manuel, fica bem na divisa com o Pará e é um dos formadores do rio Tapajós, essencial à bacia hidrográfica da maior floresta tropical do planeta.

A matança de peixes neste ponto da Amazônia, segundo o Ministério Público, pode ter as digitais dos governos brasileiro e francês. Curiosamente, o desastre aconteceu meses antes das rusgas entre os presidentes Emmanuel Macron e Jair Bolsonaro, motivadas pela questão da preservação da floresta.

A Sinop Energia, responsável pela hidrelétrica, é formada por estatais do setor energético dos dois países. Tanto para o Ministério Público Estadual quanto para o Federal, o crime ambiental no Teles Pires foi causado pela usina durante o enchimento de seu reservatório.

A concessionária responsável pela hidrelétrica une as estatais Electricité de France (EDF) e Eletrobras, e detém os direitos de exploração da usina até o ano de 2043. Líder mundial no setor, a EDF é sócia majoritária no consórcio, com 51% das ações sob seu comando. Os 49% restantes estão divididos entre duas empresas controladas pela Eletrobras.

Menos de seis meses após a tragédia, a Secretaria de Meio Ambiente do Mato Grosso autorizou o funcionamento da usina, no dia 20 de agosto. A decisão fomentou críticas, pois pesquisadores defendem que o governo do Estado tem sido conivente com a concessionária, independentemente das críticas socioambientais à iniciativa.

A Secretaria rebate dizendo que todas suas decisões sobre a hidrelétrica foram baseadas em critérios técnicos.

"Existe um discurso que as usinas trarão desenvolvimento, vão movimentar a economia local e que serão benéficas. Isso influencia a postura do governo, muitas vezes conivente [com os projetos], mesmo quando há críticas ou estudos que sugiram eventuais problemas", diz João Andrade, coordenador de Direito Socioambiental no Instituto Centro de Vida (ICV).

A organização não governamental é uma das que monitoram a expansão de hidrelétricas e outros projetos de infraestrutura em Mato Grosso.

'Não existem danos ambientais', diz consórcio

Peixes mortos no rio Teles PiresDireito de imagem   MPE-MT

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Para o Ministério Público de Mato Grosso, a morte dos peixes no rio Teles Pires foi causada pela usina durante o enchimento de seu reservatório

O crime ambiental no Teles Pires foi o episódio mais grave de um longo imbróglio entre o Ministério Público, a Sinop Energia e o governo de Mato Grosso.

A iniciativa franco-brasileira é contestada por órgãos de controle estaduais e federais há pelo menos sete anos; neste mês, o caso teve novos capítulos.

No dia 20 de setembro, a Justiça Federal acatou um pedido feito pelo Ministério Público Federal em Mato Grosso e suspendeu a licença de operação concedida pelo governo estadual em agosto.

Porém, no dia 24, menos de uma semana após a decisão, a mesma Justiça Federal voltou atrás. O juiz Murilo Mendes autorizou a retomada das atividades na hidrelétrica até esta terça-feira, 1º de outubro, quando será julgada uma ação civil pública sobre a matança de mais de 81 mil peixes no Teles Pires.

O MP do Estado acusa a Sinop Energia e o governo de Mato Grosso de serem responsáveis por um crime ambiental no rio. Ainda em fevereiro, o Ministério Público pediu o bloqueio de R$ 20 milhões da concessionária franco-brasileira para "garantir a efetividade da eventual condenação para fins de reparação dos danos".

No mesmo mês, a secretaria de Meio Ambiente multou a Sinop Energia em R$ 50 milhões por conta do episódio.

Pesquisadores como Philip Fearnside, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, têm criticado o projeto desde sua concepção. Integrante da equipe que recebeu o Nobel da Paz em 2007 por pesquisas sobre mudanças climáticas, o perito defende punições ao consórcio franco-brasileiro.

"A empresa tem que se responsabilizar pelos impactos, e as empresas responsáveis pelas outras barragens devem também ser responsabilizadas pelos impactos das suas obras", diz Fearnside.

O rio Teles Pires tem outras três hidrelétricas de grande porte em seu curso, todas também alvos de críticas por conta de impactos sobre meio ambiente, povos indígenas e ribeirinhos.

À BBC News Brasil, o consórcio formado pela EDF e pela Eletrobras nega culpa no caso. A empresa afirma que "não existem danos ambientais decorrentes da implantação da usina hidrelétrica Sinop, mas alguns impactos ambientais negativos inerentes à implantação de empreendimento dessa magnitude".

Um desastre evitável?

O possível crime ambiental em torno da hidrelétrica Sinop não veio sem avisos. Nos últimos anos, peritos e especialistas alertaram que o enchimento do reservatório traria danos irreversíveis ao rio Teles Pires e à sua biodiversidade.

O principal problema seria a alteração nos níveis de oxigênio nas águas do rio durante esta etapa de sua instalação.

O fenômeno aconteceria como consequência do alagamento de vegetações que não foram removidas do local escolhido para o reservatório, mantendo grande quantidade de biomassa para ser decomposta. Com isso, o rio se tornaria hostil à vida de peixes e outras espécies que dele dependem.

Peixes mortos no rio Teles Pires

Direito de imagem   MPE-MTImage caption
Peritos e especialistas já tinham alertado sobre a possibilidade de um problema ambiental na área

Philip Fearnside foi um dos alertaram sobre o risco da operação. O perito diz que "apenas 30% da vegetação havia sido removida da área [quando as comportas foram abertas], ao invés dos 100% exigidos por lei — uma lei que tem sido amplamente ignorada [em Mato Grosso]".

"Deixar árvores em um reservatório como o da hidrelétrica Sinop contribui para diversos impactos ambientais, como a emissão de gases de efeito estufa — especialmente metano — e a transformação de mercúrio na sua forma venenosa, metil-mercúrio", afirma Fearnside em seu relatório sobre o caso.

Logo após a matança dos peixes, uma equipe do Centro de Apoio às Promotorias de Justiça de Mato Grosso visitou a área para medir os danos. Baseado no relatório sobre o caso, o MP de Mato Grosso diz que a Sinop Energia removeu apenas 86 km² da vegetação na área inundada — o reservatório alagou 300 km², o equivalente a três vezes a área da capital do Espírito Santo, Vitória.

"Se as medidas de teor de oxigênio feitas pela Politec (Perícia Oficial e Identificação Técnica) estão certas, não há dúvida de que a falta de oxigênio na água era suficiente para matar os peixes, e a turbidez [das águas do rio] seria só uma agravante", diz Philip Fearnside.

Tanto a concessionária franco-brasileira quanto o governo de Mato Grosso negam a hipótese. A Sinop Energia diz que "atende plenamente às exigências do licenciamento ambiental", enquanto a Secretaria de Meio Ambiente alega que "a manutenção de parte da vegetação se deu dentro dos padrões da norma vigente, com apoio em dados técnicos".

Economia de gastos, críticas e pesquisas ignoradas

Menos de duas semanas após as mortes de peixes no Teles Pires, o MP de Mato Grosso tentou punir os executivos responsáveis pela Sinop Energia. Em 13 de fevereiro, os promotores Marcelo Caetano Vacchiano e Joelson de Campos Maciel pediram o monitoramento, pela Justiça, de parte do conselho administrativo da empresa.

Como a Sinop Energia é um consórcio franco-brasileiro, havia a possibilidade de diretores fugirem do país. Os promotores pediram que o então presidente da usina, o engenheiro francês Jean Christophe Marcel Jos Delvallet, e outros três membros do conselho fossem obrigados a usar tornozeleiras eletrônicas, além de serem proibidos de entrar na área da hidrelétrica e em órgãos ambientais do Estado.

Procurada, a Sinop Energia diz que "o sr. Jean Christophe não é mais o Diretor-Presidente da companhia e nunca lhe foi imputado o uso de tornozeleira eletrônica ou qualquer outra medida que limitasse, ainda que parcialmente, seus direitos civis".

Peixe mortoDireito de imagem  MPE-MT

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Segundo o Ministério Público, o grupo responsável pela usina teria cometido os crimes de associação criminosa e irregularidades ambientais

Segundo o MP estadual, o grupo responsável pela usina teria cometido os crimes de associação criminosa e uma série de irregularidades ambientais: descumprimento de obrigação de relevante interesse, fraude em procedimento administrativo, omissão ou fraude em licenciamento e poluição.

O MP de Mato Grosso também diz que os responsáveis pela Sinop Energia escolheram métodos mais baratos para instalar a usina, que não garantiam a proteção ambiental do rio e de sua biodiversidade.

Em inquérito policial sobre o caso, os promotores dizem que o método escolhido "teve caráter estritamente econômico-financeiro", pois assim haveria "economia de gastos com supressão vegetal, destinação de produtos florestais" e o consórcio poderia até ser "dispensado de pagamento de reposição florestal em virtude de não ter realizado a remoção".

A Secretaria Estadual de Meio Ambiente nega qualquer responsabilidade. Já a empresa franco-brasileira afirma que "a supressão da vegetação, além das demais ações preparatórias ao enchimento do lago, foi corretamente planejada e executada".

Problemas há mais de sete anos

Desde 2012, tanto o Ministério Público Estadual quanto o Federal questionam a viabilidade ambiental da hidrelétrica. Mas os problemas ligados à usina vão além: à época de concessão de licenças para instalação, por exemplo, a Procuradoria da República em Sinop identificou irregularidades em outras etapas do projeto.

Em uma ação civil pública, protocolada em junho de 2018 pelo procurador Felipe Giardini, o MPF em Mato Grosso viu problemas na aquisição de terras pela Sinop Energia. O MP federal acusava o consórcio franco-brasileiro de ter comprado imóveis na área onde a usina seria construída por um valor muito abaixo do preço de mercado.

A diferença entre os valores orçados pela empresa e os avaliados pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) é significativa. Segundo o MPF, o preço estipulado pelo Incra era de aproximadamente R$ 12 mil, enquanto o consórcio franco-brasileiro pagou R$ 3 mil por hectare. Mais de 200 famílias viviam nas redondezas, ocupando a chamada Gleba Mercedes, um assentamento da reforma agrária.

A empresa nega as acusações. A Sinop Energia diz que conseguiu fazer acordos com 90% dos proprietários na região atingida pela usina, alegando que isso "mostra de forma incontestável que a metodologia de avaliação e o preço pago pelos imóveis foi correta". Mas a disputa em torno da área ainda parece longe do fim.

Em pesquisa no sistema eletrônico da Justiça Federal da 1ª Região, responsável por analisar o caso, a BBC News Brasil constatou que ainda existem processos em andamento. As ações pedem indenização por danos morais causados pela Sinop Energia.

Caio de Freitas Paes

Do Rio de Janeiro para a BBC News Brasil

China: por que o país mais populoso do mundo passou...

28/12/2018

Quando a China acabou com a política do filho único, há três anos, havia esperança de que os casais tivessem um segundo filho para ajudar a desacelerar o ritmo de envelhecimento da sociedade. Mas não está funcionando.

Bebê chorandoDireito de imagem

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A China está agora se esforçando para incentivar os casais a ter mais filhos


A taxa de natalidade em declínio é hoje um dos assuntos mais comentados em toda a China - e há uma verdadeira sensação de crise.

Declarações de autoridades e propagandas estatais agora incentivam os casais a "terem filhos em nome do país", gerando críticas nas mídias sociais de que a campanha do governo é invasiva e insensível.

As medidas em discussão vão desde ampliar a licença-maternidade até estimular um segundo filho por meio de incentivos financeiros e fiscais. E há quem defenda que os limites de filhos por família – hoje, são permitidos até dois – sejam eliminados por completo.

Com o objetivo de conter o crescimento populacional, a política do filho único da China foi introduzida em 1979, um ano após as reformas econômicas. A regra foi rigorosamente aplicada para a maioria. Quem a violava podia ser multado, perder o emprego ou ser alvo de aborto forçado e esterilização. Mas a taxa de fertilidade já havia entrado em declínio acentuado na década anterior.

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Gráfico sobre a taxa de fertilidade na China, EUA e Índia

Por anos, a China se beneficiou de seu crescimento demográfico, com um grande população (quase um quinto de todo o mundo) capaz de fornecer ampla mão de obra, enquanto tinha ao mesmo tempo um número razoável de pessoas muito jovens e idosas. Isso favoreceu a rápida ascensão econômica do país.

Mas o cenário está rapidamente mudando. Para que o desenvolvimento econômico continue e a China seja capaz de lidar com o envelhecimento do país, o ritmo de nascimentos precisa crescer em vez de declinar.

O fim da política do filho único em 2015 mirou esse objetivo, mas os dados apontam que, apesar da liberdade adquirida, os jovens parecem não querer mais filhos.

Quão grave é o problema da baixa taxa de natalidade?

De acordo com o Departamento Nacional de Estatísticas da China, houve 17,86 milhões de nascimentos em 2016. A população chinesa cresceu em 1,31 milhão de pessoas - foram 12,95 nascimentos a cada 1 mil habitantes, a maior desde 2001.

Mas, em 2017, quando a política de dois filhos já deveria produzir efeitos, houve 17,23 milhões de nascimentos, uma queda de 630 mil em comparação com 2016. E a taxa de natalidade foi de 12,43 a cada 1 mil habitantes, 0,52% menor em relação a 2016 e abaixo da previsão mais pessimista antes da introdução da nova política.

As expectativas para o futuro são ainda mais sombrias sob essa política do governo. A taxa de natalidade deve continuar a cair a partir de 2018, e, em dez anos, o número de mulheres chinesas com idade entre 23 e 30 anos será 40% menor e haverá cerca de 8 milhões de nascimentos por ano.

Não surpreendentemente, esse tornou-se um dos temas mais debatidos na China. Em 6 de agosto, o jornal oficial do Partido Comunista, o Diário Popular, dedicou uma página inteira ao assunto.

Um artigo de opinião intitulado "Ter filhos é um assunto de família, mas também uma questão nacional" advertia que o Estado precisava de novas políticas para lidar com o impacto da baixa taxa de natalidade sobre a economia.

Meninos chineses com bandeiras do paísDireito de imagem

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A mídia estatal chinesa vem tratando o envelhecimento da população como uma questão de interesse nacional

Um artigo no jornal estatal Xinhua Daily, escrito por dois acadêmicos da Universidade de Nanjing, provocou protestos. Eles sugeriram a criação de um fundo para nascimentos, para o qual todos com menos de 40 anos contribuiriam. Se um casal tivesse um segundo filho, poderia retirar dinheiro deste fundo. Se não, teria de esperar até a aposentadoria.

"Penalizar quem tiver um filho ou não? Por favor, parem de mirar nas carteiras das pessoas", foi apenas um dos artigos publicados em resposta à proposta, que foi rotulada de imprudente, injusta e desnecessária.

Alguns exigiram que o Estado lide com o motivo de os jovens não querem mais filhos e tente reduzir o custo de criar uma criança, em vez de criminalizar financeiramente as pessoas.

Por que isso é tão urgente agora?

A China está rapidamente se tornando uma sociedade envelhecida. Não só a taxa de natalidade vem caindo, mas hoje vive-se mais - a expectativa de vida era de 66 anos quando a política do filho único foi introduzida e, agora, é de 76.

Gráfico da população da China por faixa etária

Isso colocará a economia chinesa sob grande pressão no futuro. De acordo com estatísticas oficiais, o número de pessoas entre 15 e 64 anos superou 1 bilhão em 2013, mas vem diminuindo constantemente desde então - e essa tendência continuará.

Ao mesmo tempo, o número de idosos está crescendo. Em 2016, a população total da China era de 1,39 bilhão - incluindo 158 milhões de pessoas com 65 anos ou mais, ou 11,4%.

Isso é mais do que uma vez e meia a definição da Organização das Nações Unidas (ONU) de uma sociedade envelhecida, quando 7% da população têm 65 anos ou mais. A ONU prevê que chegará a 17,1% em 2030.

Isso significa que os idosos são sustentados por um número cada vez menor de pessoas em idade ativa. De acordo com um artigo do site Ifengweekly, havia 3,16 jovens para cada idoso em 2011. Em 2016, a taxa caiu para 2,8. A previsão é que, até 2050, seja de apenas 1,3.

Como em outros países com projeções semelhantes, isso tem enormes implicações para a economia, para o sistema de aposentadorias e para os serviços voltados para as necessidades de idosos.

Por que as pessoas não têm mais filhos?

Muitos jovens na China que cresceram durante as três décadas de planejamento familiar rigoroso e amplo desenvolvimento econômico têm uma mentalidade diferente de seus pais.

Em geral, eles estão acostumados a ser o centro das atenções e desfrutam de riqueza material e liberdade pessoal muito maiores. Também estão se casando e tendo filhos mais tarde (se é que o fazem) e se concentram mais em suas próprias carreiras e felicidade, uma tendência que não se limita à China.

Pessoas caminham na rua em Shanghai, na ChinaDireito de imagemGETTY IMAGES Image caption
Para muitos jovens chineses, ter filhos não é uma prioridade

Quando pensam em começar uma família, uma grande preocupação é se podem pagar por isso. Pesquisas mostram que, em média, criar uma criança em uma cidade pode consumir mais da metade da renda familiar.

Creches sempre recebem inscrições em excesso, por isso muitos precisam contar com a ajuda dos avós das crianças. E ainda há a hipoteca e outros compromissos no orçamento. Em outras palavras, ter um filho é uma batalha. Ter outro demanda ainda mais recursos e apoio.

"Nossa geração tem um tremendo fardo sobre os ombros", disse uma mulher, que não quis ser identificada na reportagem. "Nossos pais idosos, nossos filhos pequenos, nossas carreiras. Tudo isso junto pode acabar com a gente."

A mulher, na faixa dos 30 anos, já tem um filho de cinco anos. Ela e o marido decidiram não dar a ele um irmão. A falta de vagas em creches é um grande motivo. "Então, contratamos babás para cuidar do nosso filho e pedimos aos nossos pais que fiquem de olho na babá."

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Como a política do filho único mudou

Quatro gêmeos nascidos em 2016Direito de imagemGETTY IMAGES Image caption
A Chine enfrenta dificuldades para combater o declínio do crescimento populacional

1979: Proposta do governo limita todos os casais a um filho.

1982: Planejamento familiar se torna uma política básica do Estado.

2000: Um casal pode ter um segundo filho, se ambos forem filhos únicos.

2013: Casais são autorizados a ter um segundo filho se um deles é filho único.

2015: Fim da política de um filho, todos os casais podem ter um segundo filho.

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Por outro lado, algumas mulheres mais velhas, já com 60 e poucos anos, dizem que teriam tentado ter um segundo filho se a política tivesse sido alterada antes, mesmo se já estivessem em idade avançada.

Então, a política durou tempo demais? Houve um debate nacional suficientemente robusto em torno do tema? Muitas pessoas estão agora se fazendo essas perguntas.

Os líderes da China demoraram a agir?

Todos os censos realizados depois de 1990 apontam para o rápido declínio da taxa de fertilidade (o número médio de filhos de uma mulher ao longo da vida) na China, que é inferior aos 2,1 necessários para haver uma reposição da população.

Mas o índice foi alvo de grande controvérsia. Uma pesquisa populacional em 2000 indicou que a taxa era alarmantemente baixa, de 1,22. Autoridades de planejamento familiar disseram, no entanto, que seria de 1,8, argumentando que muitos nascimentos não eram registrados. No fim, o índice mais elevado prevaleceu.

Essa diferença pode significar que uma situação urgente foi subestimada ou deixada de lado?

Ainda hoje, é difícil encontrar uma figura com grande autoridade sobre a taxa de fertilidade da China - alguns indicam que está em 1,2-1,4; outros, entre 1,5 e 1,7 - abaixo dos Estados Unidos (1,8) ou da Índia (2,3).

Pedidos de mudanças para conter o declínio do crescimento populacional parecem ter recebido pouca atenção. Há mais de uma década, Ye Tingfang, membro do principal conselho político da China, a Conferência Consultiva Política do Povo Chinês, argumentou contra intervenções e apresentou uma moção no Congresso em 2007, pedindo o fim da política do filho único assim que possível.

O Comitê Estatal de Planejamento Familiar disse que o país não mudaria a política. Ele fez uma petição em seguida, que foi ignorada.

Outras vozes dissidentes incluem James Liang e Jianxin Li, dois professores da Universidade de Pequim e autores do livro Há Chineses Demais?, publicado em 2012.

Eles argumentaram que a taxa de natalidade da China teria se tornado muito baixa e que, se a tendência continuasse, o país envelheceria muito rápido, a economia sofreria e a sociedade se tornaria instável. E recomendaram ajustes na política de planejamento familiar.

É difícil adivinhar o que aconteceu nos bastidores das tomadas de decisão. O fato é que em 2013 houve um relaxamento da política do filho único.

Duas crianças te deixam rico?

Hoje em dia, algo que mudou é que parece haver uma discussão mais ampla sobre questões populacionais na China. Em alguns locais, autoridades pararam de multar que tem filhos além da conta.

Alguns especialistas propõem o uso de 2% a 5% do PIB para incentivar nascimentos, por meio de reduções de impostos e incentivos em dinheiro. Outros dizem que as pessoas devem ter tantos filhos quanto quiserem.

Design do selo do ano do porcoDireito de imagemREUTERS Image caption
O governo faz campanha para incentivar famílias maiores 'em nome do país'

E há muita propaganda de incentivo, a qual as pessoas criticam na internet. "Precisamos de um pouco de espaço para respirar!", disse um internauta. "Isso tudo vai contra o que nos disseram quando crescemos (para casar tarde e ter menos filhos)", lamenta outro.

Isso é o que realmente mudou. As pessoas têm mais independência e liberdade de formular seus próprios pontos de vista e não são tão facilmente influenciadas por propaganda ou incentivos moderados. Vivem por si mesmas, não mais pelo país.

E é muito mais difícil incentivar o crescimento populacional do que restringi-lo. No fim das contas, ter filhos é uma decisão que cabe a cada indivíduo.

BBC News Brasil

O frigorífico que produz carne de frango sem matar uma ave

18/10/2018

Há uma crise iminente diante do crescente apetite por carne no mundo. Será que um frango que cisca em uma fazenda em São Francisco pode ser a solução?

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Bilhões de animais são abatidos anualmente para alimentar a população

Há uma crise iminente diante do crescente apetite por carne no mundo. Será que um frango que cisca em uma fazenda em São Francisco pode ser a solução?

Em 1931, Winston Churchill previu que um dia a raça humana "escaparia do absurdo de criar uma galinha inteira para comer o peito ou a asa, produzindo essas partes separadamente".

Oitenta e sete anos depois, esse dia chegou, como descobrimos na Just, empresa de alimentos em São Francisco, nos EUA, onde provamos nuggets de frango fabricados a partir das células de uma pena de galinha.

O frango - que tinha gosto de frango - ainda estava vivo, supostamente ciscando em uma fazenda não muito longe do laboratório.

Essa carne não deve ser confundida com os hambúrgueres vegetarianos à base de verduras e legumes e outros produtos substitutos de carne que estão ganhando popularidade nos supermercados.

Não, trata-se de carne real fabricada a partir de células animais. Elas são chamadas de diversas formas: carne sintética, in vitro, cultivada em laboratório ou até mesmo "limpa".

São necessários cerca de dois dias para produzir um nugget de frango em um pequeno biorreator, usando uma proteína para estimular as células a se multiplicarem, algum tipo de suporte para dar estrutura ao produto e um meio de cultura - ou desenvolvimento - para alimentar a carne conforme ela se desenvolve.

O resultado ainda não está disponível comercialmente em nenhum lugar do planeta, mas o presidente-executivo da Just, Josh Tetrick, diz que estará no cardápio em alguns restaurantes até o fim deste ano.

"Nós fazemos coisas como ovos, sorvete ou manteiga de plantas e fazemos carne apenas a partir de carne. Você simplesmente não precisa matar o animal", explica Tetrick.

Nós provamos e os resultados foram impressionantes. A pele era crocante e a carne, saborosa, embora a textura interna fosse um pouco mais macia do que a de um nugget do McDonald's ou do KFC, por exemplo.

Tetrick e outros empresários que trabalham com "carne celular" dizem que querem impedir o abate de animais e proteger o meio ambiente da degradação da pecuária intensiva industrial.

Eles afirmam estar resolvendo o problema de como alimentar a crescente população sem destruir o planeta, ressaltando que sua carne não é geneticamente modificada e não requer antibióticos para crescer.

A Organização das Nações Unidas (ONU) diz que a criação de animais para a alimentação humana é uma das principais causas do aquecimento global e da poluição do ar e da água. Mesmo que a indústria pecuária convencional se esforce para se tornar mais eficiente e sustentável, muitos duvidam que será capaz de acompanhar o crescente apetite global por proteína.

Abatemos 70 bilhões de animais por ano para alimentar sete bilhões de pessoas, destaca Uma Valeti, cardiologista que fundou a Memphis Meats, empresa de carnes fabricadas a partir de células, na Califórnia.

Segundo ele, a demanda global por carne está dobrando, à medida que mais pessoas saem da pobreza. Nesse ritmo, acrescenta, a humanidade não conseguirá criar gado e frango suficientes para saciar o apetite de nove bilhões de pessoas até 2050.

"Assim, podemos literalmente cultivar carne vermelha, aves ou frutos do mar diretamente dessas células animais", diz Valeti.

Muitos americanos afirmam que estão comendo menos carne, mas dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos sugerem que o consumidor médio ainda vai ingerir mais de 100 quilos de carne vermelha e frango neste ano - cerca de 20 quilos a mais do que consumiam nos anos 1970.

Hamburger de frango Image caption
A demanda por carne está crescendo em todo o mundo

O cientista holandês Mark Post é um dos pioneiros da agricultura celular - seu primeiro hambúrguer produzido em laboratório, em 2013, custou US$ 300 mil.

Nenhuma empresa ampliou ainda a produção para servir comercialmente um hambúrguer feito a partir de células, mas Post estima que, se começasse a produzir seus hambúrgueres em massa, poderia reduzir o custo de produção para cerca de US$ 10 cada.

"É claro que ainda é muito alto", avalia.

Se a Just conseguir fabricar nuggets de frango suficientes para vender neste ano, é improvável que seja em um restaurante americano, pois o governo dos EUA ainda está decidindo como proceder.

A maioria dos alimentos no país é regulada pela Administração de Alimentos e Medicamentos (FDA, na sigla em inglês). Mas alguns - principalmente a carne produzida convencionalmente - são controlados pelo Departamento de Agricultura (USDA, na sigla em inglês).

Então, se você compra uma pizza congelada nos EUA, o USDA é responsável pela de pepperoni e o FDA, pela de queijo.

"Há vários países na Ásia e na Europa com os quais estamos conversando", diz Tetrick.

Segundo ele, "há uma falta de clareza" em relação à regulamentação nos EUA, enquanto o USDA e o FDA realizam audiências públicas sobre o tema.

"Acho que os países querem assumir essa liderança. Seja pela escassez de alimentos, por questões de sustentabilidade ou apenas pelo desejo de construir uma economia inteiramente nova, eles querem assumir essa liderança", disse Tetrick.

O objetivo final é levar a "carne celular" do laboratório para grandes fábricas.

Existem atualmente dezenas de empresas que atuam nessa área e estão atraindo investidores de capital de risco do Vale do Silício e de outras regiões. Bilionários como Bill Gates e Richard Branson estão entre aqueles que investiram dinheiro na tecnologia.

O produto também conta com um benfeitor mais surpreendente: a Tyson Foods, que investiu uma quantia não revelada na Memphis Meats.

A Tyson é a maior processadora de carnes dos EUA - são cerca de 424 mil suínos, 130 mil vacas e 35 milhões de frangos processados por semana.

Então, por que a companhia estaria investindo em "carne celular"?

Ela decidiu "deixar de ser uma empresa de carne para ser uma empresa de proteína", diz Tom Mastrobuoni, diretor financeiro da Tyson Ventures, braço de capital de risco da Tyson.

"Tomamos a decisão consciente de que seremos a maior empresa de proteínas", acrescentou.

A tecnologia de ponta do Vale do Silício pode ser sinônimo de um espírito liberal e empreendedor, mas os EUA ainda são um país onde a tradição fala alto.

A Associação dos Pecuaristas tem um lobby forte e não há nenhum símbolo mais venerado ou romantizado na história do país do que a figura do caubói.

E, assim, os fazendeiros do Meio-Oeste estão entrando no debate sobre como este novo produto será comercializado - como carne limpa, carne celular, carne livre de abate, proteína ética ou apenas carne?

Em seu rancho em Ozarks, região montanhosa que se estende do Missouri ao Arkansas, Kalena e Billy Bruce alimentam seu rebanho de gado Black Angus, com a ajuda da filha de quatro anos, Willa.

Kalena and Billy Bruce, with Willa Image caption

Kalena e Billy Bruce, com a filha Willa, em seu rancho em Ozarks, nos EUA

"Acho que precisa ser rotulado propriamente - como proteína produzida em laboratório", opina Billy Bruce.

"Quando penso em carne, penso no que está atrás de nós, um animal vivo que respira."

O estado do Missouri concorda. A pedido dos agricultores, os legisladores determinaram que o rótulo de carne só pode ser aplicado ao produto do gado. É um indicio de que o rompimento com a agricultura tradicional pode estar a caminho.

"Do ponto de vista da transparência para os consumidores, para que saibam o que estão comprando e dando para suas famílias comerem, achamos que precisa ser chamado de algo diferente", diz Kalena Bruce.

Lia Biondo, diretora de políticas de expansão da associação de pecuaristas dos EUA, com sede em Washington, diz que espera que a lei do Missouri possa ser reproduzida em outros Estados.

"Vamos deixar que essas empresas decidam como chamar seus produtos, desde que não chamem de carne", diz Biondo.

Mas, em todo caso, será que alguém vai realmente comer esses produtos?

Frequentadores do Lamberts, restaurante tradicional do Meio-Oeste em Ozark, no Missouri, terão que ser convencidos.

"A carne deve ser criada em uma fazenda, nos campos", declara Jerry Kimrey, trabalhador da construção civil de Lebanon, no Missouri.

A professora Ashley Pospisil, também de Lebanon, diz que prefere não comer carne à base de células.

"Eu gosto de saber de onde a carne veio, que é natural e não foi processada em laboratório", diz ela.

Linda Hilburn, que está comendo um bife antes de ir para casa em Guthrie, em Oklahoma, concorda:

"Tem algo na criação do homem que me assusta. Só causamos destruição aqui. Eu meio que gosto da ideia da criação de Deus."

Enquanto Hilburn está longe de ser a única a ter um pé atrás com a "comida Frankenstein", como os críticos a rotularam, Josh Tetrick insiste que a carne feita a partir de células é totalmente livre das muitas doenças animais que afetam a produção tradicional de carne.

E ele está apostando na experiência humana a favor do progresso.

"No fim das contas, se você está falando do avanço do picador de gelo para a geladeira ou da matança de baleias para usar seu óleo em lamparinas até as lâmpadas incandescentes... mesmo que as pessoas associassem as lâmpadas ao diabo... a humanidade conseguiu abraçar algo novo."

"Isso sempre acontece e, se eu tivesse que apostar, é o que vai acontecer em relação a isso também."

Regan Morris e James Cook

BBC News, São Francisco

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